• Dr. Caio Tramont

Fisioterapia na Osteoartrite de Joelho

A osteoartrite (OA) é a doença articular mais comum e a principal causa de incapacidade nos idosos, juntamente com as doenças mentais e cardiovasculares. Trata-se de uma doença articular crônica, degenerativa e de alta prevalência, principalmente em idosos, caracterizada pela dor, perda de cartilagem hialina, edema, inflamação articular e da formação de osteófitos marginais. Pode, portanto, ser entendida como um estado de falência cartilaginosa, cuja probabilidade de ocorrência aumenta com a idade.

A OA exerce relevante impacto negativo na qualidade de vida do paciente idoso, podendo acarretar importante diminuição da mobilidade articular, instabilidade e risco de quedas. Além disso, apresenta elevada taxa de afastamento das atividades laborativas, introduzindo ônus inclusive ao sistema de saúde, com hospitalizações e tratamentos cirúrgicos. Sendo considerada uma das principais causas de incapacidade juntamente com as doenças mentais e cardiovasculares. As articulações sustentadoras de peso, destacando-se o quadril e, principalmente, o joelho, são as mais susceptíveis. Neste artigo, a OA de joelho, ou gonartrose, será destacada.


Os fatores predisponentes à gonartrose são divididos em sistêmicos, intrínsecos articulares e extrínsecos. Dentre os fatores sistêmicos, podemos destacar: idade, considerada como o principal fator predisponente, sexo feminino, predisposição genética, fraqueza muscular, aspectos nutricionais, obesidade e comorbidades correlatas (por exemplo: cardiopatias, hipertensão arterial e diabetes). Os fatores intrínsecos articulares compreendem grau de vulnerabilidade articular, lesões repetitivas ocupacionais e decorrentes da prática esportiva que afetam a articulação sendo que as primeiras apresentam maior relação com a OA em relação às últimas; alinhamento anormal da articulação (i.é. genu varo e genu valgo), meniscectomia e lassidão ligamentar. Os fatores extrínsecos abrangem a sobrecarga mecânica devido a atividade física não supervisionada, questões ocupacionais, sobrepeso e obesidade, por exemplo. Pode, ainda, ser classificada como primária ou idiopática, e secundária, considerando se estabelecimento após lesões induzidas por outros processos, tais como traumatismos, gota, artrite reumatoide e infecções.


A cartilagem hialina sofre processos de fibrilação, ou seja, de abertura de fendas verticais devido à solução de continuidade da superfície da cartilagem hialina, e ulceração, inicialmente, nas camadas superficiais e estendendo-se para camadas mais profundas, resultando em sua erosão; amolece e desgasta-se em decorrência do desequilíbrio entre a degradação da matriz cartilaginosa e o processo de reparação tecidual, podendo resultar tanto da carga normal a um tecido anormal quanto da carga anormal a um tecido normal. Consequentemente, após diminuição de sua espessura e, sob a úlcera cartilaginosa, ocorre exposição do osso subcondral, que, em decorrência de abrasão, ocasiona a sua eburnação, ou seja, um processo de remodelação que o torna mais denso. Em seguida, ocorrem prolongamentos nas bordas da superfície articular, formando os osteófitos marginais, constituídos por cartilagem e osso que, em conjunto com a fibrose capsular, tornam a cápsula articular menos resistente ao estresse mecânico. Observa-se, ainda, inflamação sinovial focal. Cabe lembrar que a cartilagem articular é avascular e aneural. Destarte, a dor em decorrência a gonartrose tem origem nas estruturas inervadas que são diretamente afetadas pela degeneração cartilaginosa.


O dano artrítico aos mecanorreceptores articulares pode evocar descargas anormais aferentes que vêm a diminuir a excitabilidade dos motoneurônios alfa e gama, acarretando diminuição da acuidade proprioceptiva e ativação inadequada da musculatura, resultando na ineficiência do sentido de posição articular, das estratégias de estabilização articular e atrofia do quadríceps, acelerando o processo degenerativo, que também pode ser intensificado pela limitação do nível de atividade e diminuição da autoeficácia do paciente.

Dentro deste contexto têm sido realizadas inúmeras pesquisas que objetivam estabelecer quais as formas de avaliação e tratamento mais eficazes. Das várias medidas terapêuticas disponíveis, destaca-se a cinesioterapia motora ativa-resistida (CMAR) por ser considerada por diversos pesquisadores como conduta padrão no tratamento da osteoartrite pelos benefícios na qualidade de vida e pela ausência de efeitos colaterais conhecidos.


Rigidez matinal e após períodos de inatividade por período inferior a 30 minutos. Com o progredir da doença, o paciente apresentará artralgia durante a mobilização tendo o repouso como fator de alívio e, em estágios ulteriores, artralgia em repouso e mesmo durante o sono podendo o paciente despertar em função do quadro álgico. Importante lembrar que a algia musculoesquelética é uma importante causa de incapacidade, sendo seguida por diminuição de força muscular e por déficit de equilíbrio, além de aumento da intensidade do quadro álgico proporcional à perda de força muscular, principalmente no quadríceps, o que, por sua vez intensifica o déficit funcional decorrente da gonartrose.


Nos estágios iniciais, o joelho, ao exame, pode não apresentar anormalidades sendo que pode-se constatar efusão articular e, inclusive, edema por acúmulo de líquido sinovial no joelho (MOORE, 2006: 1351; LING & LU, 2009: 1418). Algia ao toque, calor e algia ao movimento poderão estar presentes. Com o progredir da degradação articular, a crepitação e as proeminências ósseas podem ser notáveis, ocorrem deformação articular (em varo ou em valgo), alterações no alinhamento, diminuição das amplitudes de movimento. Lassidão articular e mobilidade inesperada podem ser observadas na mobilização articular passiva e podem ser sugestivas de ineficiência da estabilização ligamentar. A algia ao deambular e ao subir ou descer escadas afetam o estilo de vida do paciente idoso não apenas do ponto de vista físico, mas também do psicossocial.


A avaliação do paciente idoso com gonartrose deve englobar o exame clínico tradicional e o uso de questionários. Os questionários mais comumente utilizados são o WOMAC e o índice algofuncional de Lequesne, que fornecem informações detalhadas sobre algia, rigidez e o status funcional do paciente idoso.


Em linhas gerais, o tratamento fisioterapêutico enfatizando a analgesia, o controle do quadro flogístico, o fortalecimento dos músculos quadríceps, abdutores de quadril, extensores de quadril, isquiotibiais e panturrilha é benéfico ao paciente, mesmo quando este apresenta grau severo de acometimento, particularmente pelo impacto positivo nas amplitudes de movimento e na força muscular. Considera-se, inclusive, a boa relação custo-benefício.


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